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“Por vezes vivemos situações que nos marcam para a vida”

“Por vezes vivemos situações que nos marcam para a vida”

José Ribeiros

Agosto 2024
Se não fosse bombeiro, provavelmente seria eletricista, mas quis o destino que assim acontecesse. Aos 17 anos, ingressou na corporação de Alcoutim, sua terra natal, e não teve dúvidas de essa ser uma vocação para a vida. José Ribeiros está em modo prontidão 24 horas por dia e desempenha, há quase cinco anos, uma função de comando. Há três décadas dedicado a esta causa, fala dela com a paixão de sempre.

Em criança, José dizia querer ser polícia, mas depois cresceu a observar o irmão mais velho, membro do corpo de bombeiros de Alcoutim desde a sua fundação, há 40 anos, a entrar e a sair de casa fardado. Além disso, a escola que frequentava ficava ao lado do local onde os veículos de combate eram guardados. A proximidade diária com as operações, ouvir as sirenes e ver os carros a sair em resposta a uma ocorrência, exercia sobre ele um fascínio ao ponto de chegar, assim que tocava o dispositivo de alarme que assinalava uma emergência, a “fugir” da escola para ficar a acompanhar. “Eram outros tempos, hoje isso não aconteceria. Felizmente nunca houve problemas, mas era perigoso”, reconhece. 

Este contacto diário com a rotina dos “soldados da paz” influenciou-o profundamente. Viver neste ambiente de adrenalina constante e o respeito pelo trabalho dos bombeiros levaram-no a seguir o mesmo caminho, sem nunca esperar nada em troca. 

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O desafio de ser bombeiro

A dedicação altruísta e o desejo de ajudar a comunidade são, para ele, valores que ainda hoje perduram.

“É especialmente doloroso porque lidamos diretamente com as vítimas, que, em momentos de desespero, acabam por desabafar connosco, em lágrimas, ou descarregam em nós a sua frustração. Uma vez, ao chegar a uma aldeia, uma senhora dirigiu-se a mim revoltada por termos chegado tarde e não conseguirmos salvar as casas mais afastadas. Aceitei as críticas com calma e, pouco depois, ao perceber que tínhamos ido de longe para ajudar, o clima mudou e até me ofereceram uma sopa. Momentos como este exigem um enorme controlo emocional. Muitas vezes, vivemos situações que nos marcam para a vida”

O corpo de Bombeiros de Alcoutim atua sobretudo no concelho mas, se necessário, vai em socorro a qualquer ponto do Algarve ou mesmo do país. Estes “soldados” vão onde forem precisos mais meios. No Algarve, explica o comandante, “a colaboração entre as várias corporações é essencial: o problema de um é problema de todos. Se houver um incêndio em Monchique nós vamos para Monchique. Em grandes incêndios, o socorro é coordenado ao nível regional e avança quem for necessário, de acordo com a proximidade e as escalas definidas”. 

 

Bombeiro desde os 17 anos, José Ribeiros sente-se realizado e feliz por contribuir para a segurança das pessoas e do país

 

Numa emergência, há tanta coisa em jogo que exige uma gestão cuidadosa, mas rápida das situações, pelo que a tensão é enorme. “Quando somos os primeiros a chegar a um incêndio, há muitas preocupações iniciais: identificar pontos sensíveis como pessoas, casas ou acessos; avaliar o combustível presente, como mato ou árvores; e coordenar as equipas que vão chegando, entretanto avisadas via rádio. A primeira meia hora é particularmente crítica, pois ainda estamos a perceber o terreno e a decidir quais as melhores estratégias a seguir. Aos poucos, com uma estrutura já definida, em que uns se focam no combate, outros na logística e outros no planeamento, a operação torna-se mais eficaz”, detalha ainda. 

Além disso, oferecem outro tipo de apoio, como o transporte não urgente de doentes, e estabelecem parcerias com outras instituições, como é o caso da Odiana, a Associação para o Desenvolvimento do Baixo Guadiana, com a qual têm vindo a desenvolver atividades junto da comunidade, e a Galp, que opera em Alcoutim um dos maiores parques solares fotovoltaicos do país, ao qual prestam assistência ao nível da segurança. 

O papel importante dos voluntários

Comandar um corpo de bombeiros não é tarefa fácil, especialmente quando se trata de uma unidade de voluntários. Num concelho envelhecido como o de Alcoutim, com uma população de aproximadamente 2500 pessoas, onde mais de 60% dos habitantes têm mais de 60 anos de idade, a falta de jovens disponíveis para ingressar na corporação é grande. 

Atualmente, os Bombeiros de Alcoutim contam com 25 membros efetivos e entre 12 a 15 voluntários adicionais. Mas deviam ser mais. De acordo com José Ribeiros, há um défice de cerca de 8 a 10 pessoas. Embora a profissionalização de todos os membros pudesse ajudar e apresentar-se como uma solução, os voluntários seriam sempre necessários. “O voluntariado é um complemento vital. No entanto, o número de voluntários está a diminuir cada vez mais. A situação é ainda mais desafiante devido ao facto de, no passado, a maioria dos bombeiros ser da vila, enquanto agora muitos residem a 30 ou 40 quilómetros de distância. Embora a tecnologia, como grupos de WhatsApp e SMS, ajude na coordenação, a dificuldade persiste. Muitas vezes, quem chama os bombeiros espera que eles sejam profissionais, o que coloca uma pressão adicional sobre os voluntários, que tentam agir com o máximo profissionalismo, mesmo quando trabalham durante o dia e só conseguem fazer o piquete ou dar disponibilidade durante a noite, o que pode ser um esforço adicional considerável, uma vez que, no dia seguinte, muitos precisam de retomar as suas atividades profissionais habituais”, reforça José, lamentando o parco financiamento às associações de bombeiros. 

Tal como muitos bombeiros, José começou na profissão como voluntário
Tal como muitos bombeiros, José começou na profissão como voluntário

Tinha 17 anos e acabado de fazer um curso de socorrismo. Mais tarde foi estudar Eletricidade para Évora, área que nunca chegaria a exercer, pois estava escrito nas estrelas que o grande desígnio da sua vida era ser bombeiro a tempo inteiro. Após a formação, quando regressou a Alcoutim, havia uma vaga na corporação local que era necessária preencher e não hesitou em agarrar a oportunidade, até hoje.

A vida de um comandante para lá do quartel

Pai de dois filhos, uma rapariga, de 22 anos, e um rapaz, de 6, José já tem pelo menos um potencial seguidor, pois o pequeno já veste a farda com orgulho. “Este ano, começámos com uma escola de cadetes, um projeto antigo que reúne uma série de atividades e que está a correr muito bem. Numa terra em que o número de crianças não é muito grande, não estávamos à espera da adesão que tivemos, quase 30 crianças e jovens, entre os 5 e os 18 anos”. No fundo, uma forma de cativar a geração mais nova para uma das mais nobres profissões do mundo, apesar de nem sempre fácil de conciliar com a vida pessoal e familiar, que acaba por ter de ser gerida praticamente ao minuto, dependente que está de acontecimentos externos impossíveis de controlar.

Aliás, quando marcámos a entrevista com o José para uma tarde quente do início de agosto, sabíamos de antemão que a mesma podia ser adiada ou interrompida a qualquer momento caso houvesse um pedido de socorro naquela ocasião. Felizmente não aconteceu e ainda houve tempo para acompanhar este comandante a um dos seus hobbies preferidos: a pesca.

 

No pouco tempo livre que tem, José gosta de se dedicar à numismática (coleção de moedas), sobretudo nos serões de inverno. Já no verão, são os passeios de moto e a pesca que ocupam alguns dos seus momentos de descontração e diversão. 

Sempre que pode, depois de sair do quartel, o que, num dia normal, acontece por volta das 17-18 horas, José troca de farda e já equipado e de cana em riste desloca-se à barragem de Alcoutim em busca de um bom achigã. Quando é bafejado pela sorte e o peixe morde o anzol, tem almoço ou jantar garantidos. Nos serões de inverno prefere colecionar moedas. E como não gosta de estar parado, este alcoutenejo de 47 anos ainda arranja tempo para se dedicar, agora como vice-presidente, ao Grupo Desportivo de Alcoutim, tendo entrado nos órgãos sociais porque a filha era praticante de canoagem mas acabou por ir ficando. “Uma pessoa acaba por ganhar gosto”, assume. Apesar de ser um não praticante da modalidade, por lazer já subiu o rio algumas vezes. O ano passado organizou a 1.ª Taça Internacional do Guadiana de canoagem, que contou com cerca de 400 participantes, e já se encontra a trabalhar na segunda edição. 

Ligado profunda e intensamente à sua terra-natal e às suas gentes, José Ribeiros tem no Guadiana uma fonte de motivação e é parte indissociável da sua identidade: “Quando estou dois ou três dias sem ver o rio sinto a falta dele, não me vejo a viver noutro lugar”.