pt Seta
Sines: a refinaria que não parou de se reinventar

Sines: a refinaria que não parou de se reinventar

Negócio

Durante 47 anos, a refinaria de Sines garantiu o abastecimento energético de Portugal. Hoje, o mesmo complexo industrial prepara-se para liderar um novo capítulo: o da produção de hidrogénio verde.

Estávamos em setembro de 1978 quando os primeiros barris saíram da refinaria de Sines. Uma operação que demorou quase uma década a erguer: anos de betão, tubagens, negociações e apostas num território que até então era ocupado pelos pinheiros do Alentejo litoral e o vento do Atlântico.  

Mas o investimento viria a revelar-se certeiro. Quando arrancou, a refinaria tornou-se imediatamente numa das maiores obras industriais da história de Portugal, que garantia combustíveis a milhões de pessoas todos os dias. 

Quarenta e sete anos depois, quem trabalha naquela refinaria continua a fazer exatamente isso: a abastecer Portugal. Só que agora de outra forma. 

Uma nova vida começa a ganhar forma com a instalação de 10 módulos de eletrolisadores dentro do perímetro da refinaria. Uma unidade sem paralelo em nenhuma outra refinaria europeia, que vai substituir parte do hidrogénio cinzento por hidrogénio produzido a partir de energia renovável.

 

S

Sérgio Machado, Head of H2 and Renewable Fuels

O que estamos a fazer põe a refinaria de Sines, põe Portugal e põe a Galp no mapa da transição energética mundial.

Uma refinaria construída para durar

Perceber o que está a acontecer em Sines hoje é conhecer uma história com quase cinco décadas. Uma história de grandes decisões, tomadas em momentos de incerteza, que moldaram o abastecimento energético de um país. 

Em 1978, a Fábrica I arrancou como refinaria de hydroskimming, um processo que separa o crude nas suas frações básicas sem converter os componentes mais pesados. A decisão de ir mais longe chegou com a Fábrica II e o FCC, o Fluid Catalytic Cracker, uma unidade que converte essas frações em combustíveis de maior valor, como gasolinas e gasóleo. Quando a refinaria de Cabo Ruivo encerrou com a Expo 98, Sines ficou, a par com Matosinhos, como as únicas refinarias operacionais do país. 

A maior aposta chegou em 2008: um projeto de conversão de 1.400 milhões de euros para integrar Sines e Matosinhos num único sistema. Matosinhos passaria a produzir gasóleo de vácuo, transportado para Sines e processado num novo hydrocracker. Com capacidade para processar 220 mil barris por dia, Sines tornava-se a segunda maior refinaria da Península Ibérica e uma das maiores reconversões da história da refinação nacional. 

Hoje, o mesmo complexo está a adicionar uma camada nova. Não para substituir o que existe, mas para o tornar diferente. Como diz Sérgio Machado:

 

A refinaria tem estado sempre a evoluir e a adaptar-se ao mercado e às necessidades do sector. Isto faz com que Sines seja hoje uma das refinarias mais competitivas da Europa.

 

A maior paragem de sempre
A maior paragem de sempre

No último trimestre de 2025, a refinaria de Sines parou. Não por avaria, não por crise, mas por estratégia. Uma paragem programada para fazer o que não seria possível em operação normal: inspecionar, reparar, substituir, modernizar.  

 

Num esforço conjunto, Galp e mais de 60 empresas parceiras trabalharam lado a lado durante semanas, como uma só estrutura. Não havia Empresa A nem Empresa B. Havia um plano, um sistema de parceria que garantia que nenhuma operação crítica era feita em solitário. O resultado é uma refinaria que chega ao ciclo seguinte mais segura, mais eficiente, e com condições de operar com menos emissões de CO2.  

5.400 pessoas, de mais de 15 nacionalidades  
2 M horas de trabalho 
150 M euros em manutenção e integridade  
65  mil toneladas de CO2 por ano reduzidas

 

 

O que muda quando chegam os eletrolisadores

 

A pergunta mais interessante sobre os eletrolisadores não é técnica. É de lógica industrial. 

Uma refinaria, na sua forma mais simples, é uma máquina de transformação: recebe petróleo bruto, separa-o em frações através do calor e da pressão, e converte essas frações em produtos. Esse processo consome hidrogénio, usado para remover enxofre dos combustíveis e para converter frações pesadas em produtos mais leves. O hidrogénio que as refinarias usam hoje, incluindo Sines, é quase todo hidrogénio cinzento: produzido a partir de gás natural, com emissões de CO2 associadas. 

É aqui que entra a unidade de hidrogénio verde que a Galp está a construir dentro do perímetro de Sines. Vai produzir hidrogénio por eletrólise, usando energia renovável para separar o hidrogénio do oxigénio da água, e em termos acumulados pode contribuir para evitar 500 mil toneladas de CO2 a nível nacional. 

A construção desta unidade foi em si mesma um marco. Como explica Hugo Coelho dos Santos, H2 Project Manager, ao contrário do que a escala dos módulos pode sugerir, a construção é, na sua maior parte, um projeto elétrico: subestações, cabos, distribuição de energia. Uma refinaria a instalar, dentro de si própria, a infraestrutura de uma central. Com o projeto a 70% de conclusão, a produção deverá arrancar no segundo semestre de 2026. 

O que os eletrolisadores não fazem é parar a refinaria. Ficam ao lado das torres de destilação. O petróleo continua a ser processado. Mas a equação energética muda, com a direção que o setor precisa.

O percurso da refinaria de Sines é uma história de camadas e de continuidade com uma direção. A refinaria que abasteceu Portugal durante quase cinco décadas está a usar o que sabe fazer, e as pessoas que o sabem fazer, para construir o próximo capítulo da energia nacional.

Imprimir

Partilhar: