pt Seta
Voluntariado: a liderança que não se aprende nas salas  de aula

Voluntariado: a liderança que não se aprende nas salas de aula

Comunidade

O voluntariado está a ganhar um novo lugar nas organizações: deixa de ser apenas uma expressão de responsabilidade social para se afirmar como um ativo estratégico. Foi a partir desta ideia que a Fundação Galp organizou, em Lisboa, a conferência “Voluntariado: O Tempo que Conta”, reunindo diferentes vozes para refletir sobre o impacto destas iniciativas nas pessoas, nas empresas e nas comunidades.
 

Adaptar-se a contextos desconhecidos. Tomar decisões com informação incompleta. Compreender realidades diferentes da nossa. Estas são competências que constam em qualquer manual de liderança, mas que se constroem na experiência direta com o mundo. É nesse terreno que o voluntariado ocupa um lugar que os programas de formação tradicionais não conseguem replicar.

Em Portugal, a realidade é mais exigente. Como sublinha Carla Ventura, da CASES, apenas cerca de 6% da população participa regularmente em atividades de voluntariado. “Há aqui um paradoxo: encontramos organizações sociais com expectativas de crescimento, mas os níveis de participação continuam reduzidos”.

O papel das empresas é determinante para inverter este cenário. “O voluntariado corporativo será um dos elementos transformadores, porque ajuda a estruturar o voluntariado e a introduzir práticas de gestão com impacto no setor”, defende. Quando as empresas integram o voluntariado na sua atuação, o impacto torna-se claro: equipas mais coesas, maior proximidade entre colaboradores e uma ligação mais forte à comunidade.

I

Isabel Jonet

Presidente da Entrajuda e da Federação de Bancos Alimentares Contra a Fome


Com quase 34 anos à frente do Banco Alimentar Contra a Fome e voluntária por opção, conhece de perto o impacto transformador do voluntariado, um padrão que diz ter visto repetir-se ao longo do tempo.

Um voluntário, quando se dedica a uma causa, a sua vida transforma-se, porque tem contacto com realidades que desconhece, mas tem também a possibilidade de encontrar soluções que enriquecem o seu dia a dia, as suas relações familiares e a sua atividade profissional.

Para a responsável do Banco Alimentar, esse contacto com o real tem um efeito profundo: “O voluntariado constrói-nos e desconstrói-nos, porque passamos a olhar para o mundo de forma diferente, mais humana”, sublinha, acrescentando que será determinante para responder a uma possível desumanização associada às novas tecnologias.

São estas as competências que tendem a ganhar mais relevância nos próximos anos. Como sublinhou Ricardo António, da Ethical – Doing Well by Doing Good, cerca de 39% das competências profissionais terão de mudar até 2030. Embora muitas sejam técnicas, uma parte significativa é humana: empatia, liderança e influência social, aquelas que o voluntariado tem condições únicas para desenvolver.

Voluntariado de competências: mais do que team building
Voluntariado de competências: mais do que team building

Se o voluntariado corporativo cria contexto para desenvolver novas skills nos colaboradores, o voluntariado de competências é a forma de devolver esses benefícios à comunidade. Neste modelo, os colaboradores contribuem com o que sabem fazer: conhecimento técnico, experiência profissional ou capacidade de resolver problemas.

 

Sandra Aparício, Diretora Executiva da Fundação Galp, enquadra esta abordagem como parte da própria lógica empresarial. “As empresas têm um propósito, que é o lucro, mas hoje a sustentabilidade faz parte da sua presença no mercado. O voluntariado surge como uma expressão desse compromisso”, explica.

Um exemplo são os programas de transição energética desenvolvidos pela Fundação Galp. Em Alcoutim, as instituições sociais parceiras tornaram-se energeticamente autónomas, um resultado que combina investimento financeiro com envolvimento direto das equipas.

"Para implementar estes projetos, precisamos dos nossos colaboradores, e muitos fazem voluntariado de competências, apoiando instituições que não têm recursos nem capacidade técnica para responder a estes desafios". O impacto deixa de ser assistencial para se tornar estrutural e o voluntariado, como sublinha Sandra Aparício, "passa a ter um propósito, não sendo visto apenas como team building".

 

A importância da medição do impacto social

 

À medida que o voluntariado corporativo ganha relevância nas organizações, cresce também a exigência sobre a forma como o seu impacto é avaliado.

Os dados mostram que esta mudança já começou, mas está longe de estar consolidada. Um benchmark com 236 organizações em 39 países revela que 96,6% das empresas integram o voluntariado em horário laboral, 99,2% alinham as ações com necessidades reais das comunidades e 93,7% articulam-nas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Ainda assim, quando se trata de medir o impacto efetivo, a prática não acompanha essa ambição.

R

“Horas não são impacto”, Ricardo António

“Durante anos, o voluntariado foi medido pelo entusiasmo que gerava. Hoje, isso já não chega”, diz Ricardo António, da Ethical – Doing Well by Doing Good.

O desafio está em medir impacto real, não apenas horas ou participação. “Horas não são impactos. Participação não é transformação. É necessário ir mais longe e perceber que mudanças efetivas foram geradas nas pessoas, nas organizações e nas comunidades”.

Essa mudança de lógica implica ir além dos indicadores mais imediatos e questionar o que realmente ficou das iniciativas. O impacto existe - é visível para quem participa e para quem recebe -, mas sem tradução em dados permanece difícil de demonstrar e escalar.

 

O Tempo que Conta

 

A conferência abriu com João Diogo Silva, co-CEO da Galp, que destacou a importância de colocar a profundidade do impacto no centro das decisões.

 

João Diogo Silva, co-CEO da Galp

 

Seguiram-se Isabel Jonet (Banco Alimentar Contra a Fome), Carla Ventura (CASES), Luís Almeida Capão (CM de Cascais), Elizabete Silva (CM de Gaia), Mafalda Roriz (CM da Maia), Ricardo António (Ethical), Filipe Mello (CUF), Joana Castro e Costa (Nova SBE), Andreia Marques (Galp), Adolfo Mesquita Nunes (Galp), Sandra Aparicio (Fundação Galp), Daniel Fonseca (SONAE), Pedro Morais Barbosa (BPI) e Ana Silveira (Galp). A moderação esteve a cargo de Maria João Ruela.