Quando o turno na refinaria acaba e o voluntariado começa

Quando o turno na refinaria acaba e o voluntariado começa

Bombeiros de Santo André e Santiago do Cacém

Miguel Vicente e Gilmar Paixão Nascimento têm vidas diferentes, mas partilham algo em comum: trabalham na refinaria de Sines, são bombeiros voluntários e dividem os dias entre o trabalho, o quartel e a família. Uma rotina feita de turnos e de um compromisso com a população que continua depois do horário de trabalho.

Gilmar Paixão Nascimento deixou o Brasil para recomeçar a vida em Portugal com a família. O objetivo era simples: garantir mais qualidade de vida e segurança para a mulher e os três filhos.

Encontrou trabalho na Refinaria de Sines como operador de segurança e, pouco tempo depois, aproximou-se dos Bombeiros de Santiago do Cacém através de Humberto Campos, segundo comandante da corporação. A conversa que tiveram acabaria por mudar-lhe a rotina. “O Humberto convidou-me a entrar como voluntário. Não hesitei e já cá estou há três anos”, recorda.

Mais desafiante tem sido gerir tudo ao mesmo tempo. Entre o trabalho, que ocupa os dias úteis, e a família, o quartel tornou-se um terceiro compromisso difícil de encaixar. “Houve alturas em que acabei por deixar um pouco a desejar por causa das prioridades”, admite.

 

Gilmar Nascimento: operador de segurança na Refinaria de Sines e bombeiro voluntário

 

Ainda assim, não virou costas. Pelo contrário, trouxe a família consigo. A mulher também é bombeira voluntária e, aos fins de semana, dividem-se: enquanto um fica com os filhos, o outro vai para o quartel.

Na época dos incêndios, o compromisso intensifica-se e Gilmar chega a tirar férias para estar mais disponível. Quando é mais preciso, a escolha é clara: estar presente.

O que fica depois do turno

 

O que o mantém no voluntariado também passa pelas relações que foi construindo. Com Humberto Campos, a ligação ultrapassou há muito o quartel: jogam futebol juntos, treinam no ginásio e falam regularmente fora do serviço. “Às vezes mando-lhe uma mensagem e ele liga logo: ‘Está tudo bem? Precisas de alguma coisa?’”, conta Gilmar. Faz uma pausa antes de concluir: “Foi uma das pessoas que mais me ajudou. É um verdadeiro amigo, que vou levar sempre para a vida”.

 

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O voluntariado, admite, deixa marcas emocionais. “Às vezes vamos caindo e, para nos levantarmos, é difícil se não tivermos alguém ao nosso lado que nos ouça, a qualquer hora”.

E, no meio de tudo, mantém-se a razão que o trouxe até aqui. “É um trabalho difícil, mas ao mesmo tempo muito gratificante. Sabemos que, se não estivermos lá para ajudar a população, pode acontecer algo pior. É isso que me motiva”.

 

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111 anos de história

O quartel de Santiago do Cacém é o mais antigo do concelho e esteve na origem de outras corporações da região. Hoje, conta com 105 operacionais, dos quais 32 são assalariados. A maioria, como Gilmar, são voluntários. Mesmo entre os profissionais, o espírito mantém-se. Humberto Campos revela:

Todos, independentemente de serem profissionais, são voluntários. Trabalham de segunda a sexta, e aos fins de semana dão o seu voluntariado. É amor à camisola, algo que não se explica

À porta do quartel de Santo André
À porta do quartel de Santo André

 

Miguel Vicente tinha 16 anos quando entrou pela primeira vez no quartel dos Bombeiros de Santo André como voluntário. Morava mesmo em frente ao antigo edifício e cresceu a ver os carros a entrar e a sair, a ouvir a sirene - um fascínio que rapidamente passou a fazer parte da rotina. Um dia, foi com um grupo de amigos da escola inscrever-se como voluntário, mais por curiosidade do que por outra coisa, e acabou por ficar.

 

Vinte e três anos depois, é o segundo-comandante da corporação. “Nunca foi o meu objetivo chegar aqui. Surgiu por convite e aceitei o desafio porque sempre fui muito ativo”, diz, com naturalidade.

Hoje, os filhos, de 6 e 10 anos, também crescem com o quartel por perto, tal como aconteceu consigo. “Quando estou de serviço, muitas vezes andam por aqui de bicicleta e a brincar neste espaço vedado. A nossa prioridade é conseguir juntar a vida pessoal com o voluntariado.”

O trabalho na refinaria de Sines, onde é operador de segurança, ajuda a organizar os dias. Nos turnos da tarde, aproveita as manhãs para passar pelo quartel. "Passo aqui todos os dias", conta. É essa presença constante que explica o que o prende ao lugar. "Quando abraçamos esta causa, ganhamos aqui uma segunda família. E às vezes torna-se a primeira, há ocorrências que nos marcam, que nos aproximam destas pessoas como se fossem da nossa própria família."

Um quartel que quase não chegou aos 37 anos

 

Quartel da corporação de bombeiros de Santo André

 

O Corpo de Bombeiros de Santo André fez 37 anos. É um quartel jovem, numa cidade que cresceu à volta da zona industrial de Sines. Mas há poucos anos, o futuro do quartel esteve em risco. No final de 2022, o estado da associação era frágil, e com uma nova direção e um novo comando as coisas ganharam outro rumo. 

Uma nova direção, com uma ligação forte à refinaria de Sines, assumiu a dianteira para fazer renascer a Associação. Passo a passo, a casa foi sendo reorganizada. “Passámos de 15 para 23 assalariados. Conseguimos regularizar ordenados em atraso e pôr a casa em ordem. Tudo com a colaboração da Galp”, recorda Miguel. 

 

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Santo André & Santiago do Cacém
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Saber que gera rendimento

Uma das formas que o Corpo de Bombeiros de Santo André encontrou para gerar receita foi a formação. Os operacionais dão formação especializada dentro da Refinaria, numa parceria que reconhece o seu valor. Em paralelo, o quartel também disponibiliza formações a empresas e cede espaços para ações formativas.  

O quartel de Santo André tem hoje 52 operacionais. Para o território que serve - uma freguesia com perto de 11 mil habitantes -, numa zona com refinaria, petroquímica e porto -, é um número insuficiente. Como refere Miguel Vicente, "quando temos uma ocorrência com mais complexidade, é sempre preciso mais pessoas".

Onde o bombeiro chega primeiro

 

Num dia normal, o quartel de Santiago do Cacém responde a seis ou sete ocorrências de emergência pré-hospitalar. Nos dias mais exigentes - sobretudo aos fins de semana de verão, quando a cidade recebe mais pessoas - esse número pode subir para 10 ou 12. A maior parte das intervenções está ligada ao transporte de emergência. "O bombeiro está em todas as ocorrências. É a senhora que se sentiu mal, é a pessoa que teve um acidente, é um incêndio - está lá o bombeiro", afirma Humberto Campos. 

Em Santo André, o cenário é semelhante: o pré-hospitalar domina grande parte do trabalho diário, seguido dos acidentes rodoviários. Mas existe uma preocupação adicional devido à proximidade à zona industrial de Sines. Miguel Vicente reconhece que esse contexto exige meios e preparação muito específicos. “Não estamos tão preparados como devíamos. Se houver uma ocorrência na indústria, temos de contar que a própria indústria esteja preparada para nos acolher”.  

Nestes territórios, a distância faz parte do dia a dia dos bombeiros. Por exemplo, em Santiago do Cacém, da sede do quartel até aos pontos mais afastados do concelho podem ser quase 50 quilómetros. 

A população está envelhecida, dispersa e, muitas vezes, sozinha. Isso traduz-se noutro tipo de chamadas. "Há pessoas que ligam aos bombeiros à uma da manhã só para falar", conta Humberto.  

 

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Proteger quem protege 

 

Equipar um bombeiro custa, no mínimo, 1.000 euros. Botas, calças, casaco, capacete e luvas: um conjunto indispensável para garantir segurança em qualquer intervenção. O problema é que nem sempre existe capacidade financeira para equipar todos os operacionais. 

“Cheguei a comprar equipamento do meu próprio bolso para que outros colegas pudessem ter o que usar no terreno”, admite Miguel Vicente. Humberto Campos é peremptório: “Quem não tem equipamento para salvar, não pode salvar. E nós não podemos pôr os nossos operacionais em risco”. 

 

 

A consignação faz a diferença

 

Em quartéis onde cada equipamento conta e onde o voluntariado continua a sustentar grande parte da operação, a consignação do IRS pode ter um impacto direto no dia a dia. Em Santiago do Cacém, as verbas serão canalizadas para equipamento de proteção individual. Em Santo André, a prioridade passa por reforçar equipamentos, melhorar condições de trabalho e garantir estabilidade na gestão corrente

O apoio da Fundação Galp tem sido uma ajuda importante para ambos os quartéis, através da entrega de capacetes, calças, casacos e apoio ao combustível da frota. Só nesta última componente, a refinaria de Sines assegura anualmente cartões que representam uma poupança de vários milhares de euros.

Ainda assim, as necessidades mantêm-se. E, para quem vive entre turnos, sirenes e chamadas inesperadas, pequenos gestos podem fazer uma diferença muito concreta no terreno.

 

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