“Cada pessoa que acompanhamos representa uma família inteira”

“Cada pessoa que acompanhamos representa uma família inteira”

Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Alcoutim

Rita Martins conhece pelo nome cada criança que passa pelo Centro Infantil "A Joaninha" e acompanha, com a mesma proximidade, o dia a dia dos mais velhos no lar e no centro de dia. Em Alcoutim, a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários mantém respostas sociais essenciais num território envelhecido - uma missão que a Fundação Galp apoia e que os contribuintes podem ajudar através da consignação do IRS.

 

No interior do Algarve, longe do litoral e do reboliço turístico, fica Alcoutim. O Guadiana define a fronteira com Espanha, com as duas margens visíveis a curta distância. Trata-se de um dos municípios mais extensos da região e também um dos menos populosos do país: pouco mais de 2.500 habitantes espalhados por um território vasto, marcado pelo envelhecimento da população.

A maioria vive dispersa por pequenas localidades, muitas vezes afastadas entre si. A oferta de emprego é limitada e a falta de habitação dificulta a fixação de novos residentes.

É neste território que a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Alcoutim assegura um conjunto de respostas sociais. A instituição funciona como uma IPSS com duas áreas: a proteção de pessoas e bens, através dos bombeiros, e o apoio social à infância e à terceira idade.

“Joaninha”: onde tudo começa
“Joaninha”: onde tudo começa

O Centro Infantil “A Joaninha” fica numa casa de dois pisos na vila. Rita Martins, diretora técnica das respostas sociais, recebe-nos à entrada com a energia de quem conhece todos os cantos da casa e cada criança pelo nome. A visita começa pelo berçário, no primeiro piso. Ao todo, têm sete bebés a cargo. “É um número que nos preocupa, porque mostra bem o risco em que está o futuro de Alcoutim”, afirma Rita Martins.

 

Descemos para o rés do chão, onde o ambiente ganha outra energia: refeitório, salas de pré-escolar - hoje com sete crianças - e ligação direta ao exterior. Na totalidade, o centro acompanha 14 crianças, um número distante das 36 que já chegou a acolher. A baixa natalidade, a falta de emprego e a escassez de habitação dificultam a fixação de jovens famílias.

Ainda assim, os últimos anos trouxeram uma mudança inesperada: a chegada de famílias estrangeiras - do Brasil, da Índia, de Marrocos, da Colômbia ou de Timor -, que deram nova vida ao centro.

“Isso mudou a dinâmica de forma muito positiva”, conta Rita. “Trabalhámos muito a multiculturalidade, a aceitação da diferença. As crianças aprendem isso de forma natural.”

 

Um espaço que voltou a viver

 

Há não muito tempo, o recreio do Centro Infantil "A Joaninha" estava inutilizado. O espaço exterior existia, mas as condições não permitiam que as crianças o usassem com segurança. Lá dentro, a situação não era melhor: janelas com má vedação, iluminação deficiente ou portas degradadas.

A requalificação do edifício - janelas, portas e iluminação - foi possível com o apoio da Fundação Galp. Equipas de voluntários da Galp intervieram diretamente no espaço, tanto no interior como no exterior, devolvendo condições para ser usado. "Antes, tínhamos situações em que o conforto das crianças estava comprometido", recorda José Dias Rodrigues, secretário da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Alcoutim.

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Da horta para a mesa

Num canto do recreio, há uma horta pedagógica onde cresce hortelã, manjericão, salsa e ervilhas. As crianças semeiam, regam e voltam todos os dias para ver o que mudou: uma semente que rebentou, uma folha nova, um caule mais alto, sinais pequenos que acompanham de perto.

E há uma descoberta que Rita conta com um sorriso: "Mesmo as crianças que dizem não gostar de certos alimentos acabam por experimentar, porque foram elas que plantaram”.

O convívio que faz falta

 

A cerca de 500 metros do centro infantil, o Centro de Dia acolhe os habitantes mais velhos do concelho. Muitos vêm não por necessidade física, mas porque vivem isolados, em montes distantes. De manhã, a carrinha vai buscá-los a casa. Passam o dia acompanhados, convivem e alguns vão até à vila. Ao final da tarde, regressam a casa, com jantar incluído. "Aqui encontram convívio, apoio e uma rotina. É uma forma de manterem a ligação à comunidade sem perderem a sua autonomia", afirma Rita Martins

A associação gere também um lar residencial e um serviço de apoio domiciliário, que inclui entrega de refeições e apoio na higiene. Os cuidados de saúde são prestados no próprio espaço sempre que possível - uma equipa com médico semanal, duas enfermeiras e assistentes garante que os utentes raramente precisam de se deslocar para outros concelhos.

 

Respostas sob pressão

 

José Dias Rodrigues é natural de Alcoutim, mas viveu muitos anos fora. Regressou em 2018 para cuidar da família e acabou por integrar a direção da associação. Encontrou uma instituição com história, mas também alguns desafios acumulados ao longo dos anos

A recuperação foi gradual e nem todas as respostas resistiram. "Já tivemos três centros de dia. Hoje são dois e um deles está em risco. Houve situações em que tínhamos mais funcionários do que utentes", admite. O lar enfrenta outro desafio: os utentes chegam hoje com níveis de dependência muito mais elevados, num edifício antigo que não foi pensado para isso. Faltam rampas e adaptações.

 

Pessoas que fazem a diferença

 

A falta de recursos humanos é um dos maiores desafios da associação. Atrair trabalhadores não é fácil, sobretudo num território onde a escassez de habitação dificulta a fixação, mesmo quando há emprego disponível.

Nesse contexto, os trabalhadores imigrantes têm tido um papel decisivo. Além de reforçarem as respostas existentes, trouxeram novas dinâmicas ao dia a dia da instituição. No centro infantil, isso traduz-se numa maior diversidade cultural, que se reflete no trabalho com as crianças.

“Cada pessoa que acompanhamos representa uma família inteira”, resume Rita Martins. Ao garantir o bem-estar de uma criança ou de um idoso, a associação está também a dar tranquilidade a quem está à volta: filhos, netos e cuidadores.

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Reforço que veio de fora

“Arrisco dizer que os imigrantes vieram salvar a situação. Sem eles, não sei como conseguiríamos manter os serviços”, afirma José Dias Rodrigues.

Muitos chegam para trabalhar na associação e acabam por trazer a família. Os filhos ficam no centro infantil, integram-se na comunidade e ajudam a manter vivas respostas que, sem estas pessoas, seriam difíceis de garantir.

A Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Alcoutim é, a seguir ao município, o maior empregador do concelho. Protege, cuida, emprega e sustenta respostas essenciais para a comunidade.

Manter estas respostas exige recursos que nem sempre chegam. A consignação do IRS permite apoiar diretamente este trabalho: sem qualquer custo adicional, é possível destinar 1% do imposto já pago à associação. Um gesto simples, com impacto real - num lugar onde cada apoio conta.

 

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