"Nós é que temos de nos ajustar às pessoas"

"Nós é que temos de nos ajustar às pessoas"

Associação de Apoio Social de Perafita

Em Perafita, Matosinhos, há uma associação que abriu porque havia 300 idosos sozinhos e alguém achou que isso tinha de mudar. Hoje, quase 30 anos depois, a Associação de Apoio Social de Perafita tem três respostas sociais, 66 colaboradores e uma lista de espera para o lar. Celestina Silva e Ângela Ferreira contam como se leva esta missão para o futuro.

O Centro de Dia da Associação de Apoio Social de Perafita está instalado num rés do chão de um bairro residencial na freguesia de Perafita, concelho de Matosinhos. Num dia normal de semana, os 30 atuais utentes começam o dia com o pequeno-almoço e passam para a atividade que preferirem: conviver e relaxar numa sala, jogar jogos ou conversar sobre os assuntos do dia, ou até usufruir da companhia da televisão. Para muitos destes homens e mulheres, com idades entre os 70 e os 90 anos, este é o espaço que estrutura o seu dia, que substitui o isolamento em casa e que garante cuidados que a família já não consegue dar sozinha. 

"Às oito da manhã já estamos a receber pessoas, muitas delas trazidas pelas famílias, e só fechamos às seis da tarde", explica Ângela Ferreira, diretora técnica da associação. O horário, que podemos considerar alargado, surgiu da necessidade de ajudar as famílias a gerir as suas próprias vidas. "Não é só o utente que precisamos de ajudar. É também quem toma conta deles." 

No interior, cada utente tem um lugar. À entrada, as funcionárias conhecem os nomes, os hábitos, as histórias. Há quem prefira almoçar mais tarde, quem precise de ajuda para se alimentar, quem traga para aqui a única conversa do dia. Todos os dias, as carrinhas adaptadas para mobilidade reduzida percorrem as ruas de Perafita, Leça e Santa Cruz do Bispo. "Fomos das primeiras instituições a ter transporte adaptado. Nós é que temos de nos ajustar às pessoas. De outra forma é muito difícil”, explica Ângela. 

 

Uma história que começa com uma percepção
Uma história que começa com uma percepção

 

A Associação de Apoio Social de Perafita vai fazer 30 anos. A história começa em 1997, quando Celestina Silva, atual presidente, estava no Executivo da Junta de Freguesia de Perafita. A perceção era clara. Havia muita gente sozinha na freguesia: idosos sem filhos, ou com filhos em Lisboa ou no estrangeiro, sem rede de apoio. Mas não bastava a perceção. 

 

"Pegámos em duas estagiárias de serviço social e fomos ao Centro de Saúde de Perafita conhecer a realidade", conta Celestina. As jovens foram pelos caminhos da freguesia, porta a porta, e a conclusão foi inequívoca: mais de 300 pessoas em situação de isolamento e com a previsão de, nos anos seguintes, muitas mais se juntarem a este número. 

 

Após a análise dos dados, um grupo de pessoas juntou-se num almoço e decidiu avançar para um projeto de apoio à população sénior: “Mobilizámos o que estava ao nosso alcance, os Lions de Perafita e algumas empresas do tecido local. Sentámos toda a gente num almoço, e dissemos: ‘É isto. Nós queremos partir para a luta, vamos fazer.’” 

A Associação de Apoio Social de Perafita tem hoje três respostas sociais: apoio domiciliário (SAD), com 90 utentes, o Centro de Dia, com 30, e um lar de grandes dependentes, em Leça da Palmeira com 32 utentes. É neste último que a exigência é mais intensa e onde a missão da associação é mais visível. 

"São aqueles utentes que normalmente ninguém quer receber", diz Ângela Ferreira sem rodeios. Estamos a falar de demências avançadas: AVC, Parkinson, quadros complexos que exigem enfermagem 24 horas, equipas treinadas e, acima de tudo, uma atitude. "Chegámos a receber utentes de outros lares que escreviam às famílias a convidá-los a sair, porque importunavam muito o serviço." 

A responsável destaca ainda a relação próxima com o Hospital Pedro Hispano e com os centros de saúde de Perafita e de Leça da Palmeira. “Acolhemos pessoas já muito dependentes. Quando nos fazem chegar estes casos já estamos a falar de pessoas que precisam para aquele momento.” 

Celestina Silva, a presidente, recorda uma situação recente: uma senhora com demência que insultava a equipa com palavras que ela própria nunca usaria em plena consciência. "Se não se tem a perspetiva de que a pessoa não está a incomodar ninguém - está a dar trabalho porque a cabeça já não dá - é muito difícil de trabalhar", explica. Já houve situações em que um utente agrediu fisicamente uma funcionária. "Temos de explicar às pessoas que aquilo é uma doença. E estar com elas nas horas mais difíceis de serviço, para que elas entendam que têm aqui a sua responsável também presente." 

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Calçar o sapato da pessoa

Há um princípio que Ângela Ferreira repete ao longo da conversa, de várias formas: não é o utente que se tem de adaptar ao serviço. É o serviço que se tem de adaptar ao utente.  

"Já cheguei a ter aqui um senhor que estava habituado a almoçar à uma e meia. Chegava ao meio-dia e dizia-me que àquela hora era para ler o jornal. As funcionárias ficaram em alvoroço. Eu disse: o senhor é autónomo. Vamos almoçar ao meio-dia e tal e depois ele almoça comigo." E assim foi. No lar, a mesma lógica: um utente que queria ver séries até às três da manhã e levantar-se ao meio-dia. Um auxiliar ficava de vigília. "O que é que eu ia ganhar em criar uma resistência? Ia criar mal-estar nas pessoas que trabalham com ele, ia ficar chateado, desiludido." 

"Tento sempre calçar o sapato da pessoa", resume. "Este exercício é o mais difícil e o mais simples ao mesmo tempo." 

Os painéis solares e o que eles representam

 

Foi através do Projeto Colmeia, uma parceria da Galp com a Câmara Municipal de Matosinhos, que chegou o primeiro apoio concreto da Fundação Galp: a instalação de painéis solares no lar de Leça da Palmeira. O processo começou com um funcionário da Galp que tinha tido um familiar internado no lar e que redirecionou uma candidatura ao projeto para a instituição. 

"Concluímos a colocação dos painéis no ano passado e começamos a ter expressão na fatura da energia", explica Celestina. O contexto de aumento de preços da energia, entretanto, nivelou parte do efeito, mas a expectativa é que a poupança fique nos 25%, a médio prazo. "O que é muito bom para nós." 

Para percebermos o que isso significa, basta ouvir como funciona a gestão do dia a dia. "Se precisamos de lençóis, o ideal era comprar 50. Mas só compramos 30. Todos os dias há camas para lavar. No inverno as coisas não secam, temos lavandaria própria mas não chega”, explica Celestina. Ou as camas articuladas com mais de 15 anos: "Pedimos ajuda a quem nos consiga pôr aquilo a funcionar, porque um comando novo custa muito." E, com 10 viaturas em operação, basta um dia de estradas com buracos para ter pneus furados. 

A poupança na energia não liberta dinheiro extra, mas liberta folga. E folga, nesta casa, é a diferença entre ter stock de material ou não ter.

O que sustenta tudo isto

 

 

A associação tem 66 trabalhadores. A Segurança Social comparticipa com acordos que totalizam 52 mil euros mensais, mas os salários rondam ou ultrapassam esse valor. "As instituições fazem o trabalho que o Estado deveria fazer. E o Estado Social não paga o trabalho que nós temos." 

A resposta, em parte, vem do mecenato empresarial. Quando o lar abriu, cada quarto foi financiado por uma empresa local: “O nome ainda lá está, na parede”, diz Celestina. Agora, a instituição quer construir um novo equipamento a 800 metros do centro, que junte as três respostas sociais e duplique o número de vagas no lar para 60 utentes. O novo projeto será financiado pelo Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (PARES) e pela iniciativa privada. O projeto de arquitetura já está assegurado, com apoio da Câmara. O resto será trabalho de anos. 

"Há aqui empresas com um impacto enorme no território. Todas têm gente a trabalhar que vai ser velha. Tornem-se associados para usufruírem mais tarde", diz, sem ironia. 

 

No Centro de Dia, no Lar e no SAD da AASP, o impacto mede-se em coisas que não têm número. Mas também na consciência de que, como diz Ângela Ferreira, a pior coisa que pode acontecer é termos de depender do outro. “O que fazemos aqui é tentar que isso seja menos difícil." 
 
É esse trabalho, feito todos os dias e passo a passo, que o apoio através da consignação do IRS ajuda a garantir.

 

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