A Galp e o Instituto Superior de Agronomia (ISA) apresentaram a primeira colheita de uvas cultivadas sob painéis solares em Portugal, resultado de um projeto-piloto desenvolvido na vinha do campus do ISA, em Lisboa. Depois de dois anos de ensaios, a experiência dá agora origem ao “Luz da Tapada”, uma edição especial de 400 garrafas (200 de uvas sob painéis e 200 da zona de controlo, casta Encruzado), e confirma o potencial do conceito agrovoltaico para conciliar produção agrícola e energia renovável no mesmo espaço.
A experiência, realizada nas castas Viosinho e Encruzado, permitiu acompanhar dois ciclos de produção e medir o impacto dos painéis nas condições microclimáticas da vinha. Na zona sob os painéis, a radiação solar incidente foi reduzida entre 35% e 50% e a humidade relativa foi, em média, cerca de 10% superior à registada na parcela a céu aberto. As folhas apresentaram também temperaturas consistentemente mais baixas, sobretudo nas horas de maior calor, com diferenças médias entre 1,5ºC e 3ºC face à parcela de controlo.
Os ensaios mostraram igualmente alterações na taxa de maturação das uvas. Em 2025, primeiro ano em que foi possível acompanhar um ciclo vegetativo completo sob os painéis, a colheita ocorreu entre 10 e 22 dias mais tarde do que na parcela de controlo. Em 2024, apesar de os painéis terem sido instalados já numa fase avançada do ciclo vegetativo, a maturação ocorreu cerca de duas a três semanas mais tarde.
Um dos resultados mais expressivos verificou-se na proteção dos cachos contra o escaldão. Em 2025, na casta Viosinho, a incidência deste fenómeno foi de 21,3% na parcela de controlo, face a valores entre 1,8% e 2,8% sob os painéis. Na casta Encruzado, passou de 31,2% na parcela de controlo para valores entre 2,3% e 5,2% na zona protegida.
“Este desfasamento na maturação é particularmente relevante num contexto de temperaturas mais elevadas e vindimas progressivamente mais antecipadas, reforçando o potencial do agrovoltaico como ferramenta de adaptação da viticultura às alterações climáticas. Ao longo dos últimos dois anos estudámos em detalhe o impacto dos painéis da vinha: das medições de temperatura, radiação, humidade e maturação à produção efetiva de um vinho experimental a partir de uvas cultivadas num sistema agrovoltaico, que é materializado pelo ‘Luz da Tapada’, destaca Professor Carlos Lopes, em representação da equipa do Instituto Superior de Agronomia.
Produção agrícola e energia no mesmo espaço
O projeto demonstra também a possibilidade de combinar, numa mesma área, produção agrícola e geração de energia renovável. A solução instalada na vinha do ISA conta com 288 painéis fotovoltaicos, distribuídos por 12 estruturas móveis, numa área de cerca de 1.700 metros quadrados, e tem uma potência instalada de 130 kWp.
A energia produzida destina-se ao autoconsumo no campus do ISA e permite responder a cerca de 25% do seu consumo energético. A instalação elevada dos painéis permite, simultaneamente, manter as operações agrícolas na vinha, incluindo a circulação de pessoas e equipamentos.
“Mais do que um projeto de produção de energia, esta experiência permite avaliar a forma como a presença dos painéis altera as condições em que as plantas se desenvolvem e como essas alterações podem contribuir para uma agricultura mais resiliente. Com este projeto, mostramos também como o agrovoltaico pode conciliar produção agrícola e energia renovável no mesmo espaço”, afirma Georgios Papadimitriou, administrador executivo da Galp responsável pelas áreas das Renováveis e da Inovação.
A experiência adquirida no projeto do ISA está já a ser transposta para outros contextos agrícolas. A Galp está a testar a aplicação da tecnologia em culturas de maçã e mirtilo, nas regiões Oeste e Norte do país.
O objetivo é avaliar o comportamento das soluções agrovoltaicas em diferentes culturas e condições, aprofundando o conhecimento sobre a sua utilização na agricultura e sobre o contributo que podem dar para a proteção das culturas, a gestão dos recursos e a adaptação a condições climáticas mais exigentes.